31 de julho de 2008

Caridade é abrir fábricas

Os homens, principalmente nas últimas décadas, têm se preocupado cada vez mais com as questões sociais. Cada dia mais vemos pessoas saindo nas ruas com placas em manifestações por essa o aquela idéia. Que altruísmo mais belo, não?

Paris: vamos queimar uns carros?

Ninguém nega a importância desses movimentos por uma sociedade mais justa e igualitária. Ninguém nega que as pessoas que protestam, que gritam, que entram nas trincheiras contra a guerra, que armam as barricadas por um mundo melhor realmente acreditam em seus ideais e têm as melhores das intenções ao se engajarem e agirem.

O único problema talvez seja o fato de as pessoas, por razões ideológicas quase dogmáticas, estarem levantando a voz contra as coisas erradas, estarem reinvidicando uma série de exigências que são incompatíveis com a realidade e que, no fundo, vão piorar a vida das pessoas e tornarão a sociedade mais injusta e desigual.

O autor desse texto não quer, obrigatoriamente, usar o chavão "it's the economics, stupid", mas acha importantíssimo relembrar alguns conceitos basilares da organização econômica da nossa sociedade, organização essa que, como já demonstrado antes, não será alterada por fatores exógenos a ela mesma.

Um dos pilares da nossa sociedade é, sem dúvida, a busca pelo lucro. Sim, é da famigerada taxa de lucro que estou falando. Por ela, os homens movem o céu e a terra. O incentivo que o retorno monetário trás é surpreendente. Foi ele que nos deu quase tudo o que nos cerca, foi ele que nos possibilitou ter maior conforto e uma melhor condição de vida.

E tudo isso motivado por quê? Pelo simples interesse pessoal que cada um tem. O autor desse texto quer deixar claro que não pretende, obrigatoriamente, citar Adam Smith por aqui. Já está demasiado claro que há uma identificação profunda dos ideais desse texto com a filosofia do individualismo de Smith.

Devemos apenas deixar claro que "não é pela benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos obter nosso jantar, mas da consideração que têm pelo seu próprio interesse. Dirigimo-nos, não à sua generosidade, mas ao seu amor próprio, pois nunca os comovemos pelas nossas necessidades, mas pelas vantagens que ele lograrão".

A crítica agora se constroe sobre aqueles que protestam e tentam minar essa força que impulsiona nosso mundo. Para começar, criticam o lucro e a luta por obtê-lo. Ou seja, criticam as bases que nos deram tudo o que temos. Não é possível vislumbrar uma alternativa tão eficiente para a produção. Há quem cite Stálin e seus bem-sucedido planos quinquenais, mas os que o fazem ignoram os mais de sete milhões de mortos da coletivização forçada de terras.

Além disso, temos aqueles que, de forma claramente bem intencionada, pregam melhorias para um determinado grupo social, no caso, os trabalhadores. O que eles não vêem é que seu ataque à "burguesia" só pode se converter em uma única coisa: desemprego.

O exemplo atual mais claro disso é, sem dúvida, Paris. Bela cidade, belos monumentos, muita história e, sem dúvida, protestos. O povo que levou à frente a Revolução Francesa e a Comuna de Paris adora sair às ruas. Hoje, criticam a presidência que tenta liberalizar a economia. Será que, realmente, os governantes da França são maus e comprometidos com o capital explorador?

Se formos a Saint-Dennis veremos que é exatamente o contrário. Os pobres imigrantes vivem sem nenhuma perspectiva de futuro na economia formal porque, como os encargos trabalhistas são enormes, ninguém se dispõe a contratá-los. Assim, a alternativa contra a dura realidade torna-se apenas incendiar carros. Ou seja, para que um grupo tenha seus privilégios legalizados, outros devem ser marginalizados. E ainda há protestos pela manutenção dos "direitos adquiridos".

Será que as pessoas que levantam as bandeiras pela melhoria nas condições sociais são mesquinhas e aproveitadoras? Já dissemos aqui que não. Talvez sejam apenas ingênuas e idealistas. O problema é que por defenderem algo que pode parecer positivo, os nossos novos revoltados acabam gerando uma situação pior do que se simplesmente não se engajassem em assuntos que pouco compreendem.

A verdadeira caridade talvez seja, mesmo, abrir fábricas. Assim se amplia a economia, o emprego e se obtem o melhor possível para todos. É na busca pelo seu próprio interesse que se melhora a vida do coletivo.

It's the economics, stupid.

12 de junho de 2008

Econômicas

- No longo prazo estaremos todos mortos.

- Isso é uma ameaça?

...

6 de abril de 2008

Uma História Sem Fim


Depois da publicação de um famoso livro, uma certa idéia tem se espalhado na cabeça das pessoas: a idéia de que vivemos o início do fim da história.

Acreditar, contudo, que o homem tem sua natureza naturalmente compatível com o sistema capitalista e que, portanto, nunca sairemos mais dele é uma pretenção que nenhum ser humano deveria fazer.

O objetivo do presente texto não é gritar com os desiludidos do século XX, afirmando que o socialismo é possível, que iremos ao comunismo, que o capitalismo é incompatível com a humanidade. O objetivo do presente texto é apenas um: tentar explicar que a humanidade é dinâmica.

Na passagem do período feudal para o capitalista houve uma profunda mudança, não só na organização dos meios produtivos, mas na mentalidade humana. O processo de expanção natural da produtividade agrícola, somado com o fim das guerras medievais levou ao renascimento do comércio, do espaço urbano e a centralização de poder no Estado-Nação. Esse processo originou e foi originado por uma mudança de mentalidade geral da sociedade. Homens como Hobbes, Maquiavél, Bacon e Locke são exemplos da tendência da sociedade a se aproximar de valores mais individualistas. O individualismo, aos poucos, foi tomando forma entre os homens, alterando a antiga mentalidade feudal e instaurando uma mentalidade compatível com o capitalismo.

Adam Smith representa bem a consolidação do fim desse processo de mudança de mentalidade, rompendo em definitivo com os nomes que o antecediam, escrevendo um livro que, basicamente, defende que as pessoas lutem pelos próprios interesses, e que isso é moralmente defensável.

Toda essa retomada histórica se deu para lembrar que o homem pode simplesmente mudar sua mentalidade e, com isso, alterar o sistema vigente.
A sociedade contemporânea tem a mentalidade capitalista, por isso, o sistema é completamente compatível com ela. Pressupor, no entanto, que tal mentalidade se manterá inalterada ad infinitum é um erro.
Não se trata de dizer que haverá uma mudança, apenas de que ela não é impossível. Não se trata também de dizer que essa mudança será para o socialismo, ou para o comunismo; a eventual mudança pode ser para qualquer direção, qualquer.

Afinal, o capitalismo tem como característica ser o sistema mais dinâmico existente até hoje. A Destruição Criativa que Joseph Schumpeter descreveu está aí. Talvez seja exatamente desse processo de se destruir e inovar que o sistema mude.
A mudança, no entanto, provavelmente virá de dentro do próprio sistema capitalista. Marx já dizia isso, mas talvez de forma errônea.
Não se trata de uma mudança advinda do proletariado. De fato, o proletariado está cada dia mais próximo da extinção. E talvez seja exatamente desse fim da figura do operário fabril que surjam as próximas alterações mais profundas em nosso mundo.
Condenar a história à pura e simples dialética é um erro.

24 de março de 2008

Política e Tecnocracia


A política é suja, e isso todos sabemos. Ninguém aguenta o discurso político, a falsidade, as promessas de campanha, a compra de votos, o clientelismo, o nepotismo, a corrupção, o populismo. Os políticos ainda tem um mal maior: na maior parte do tempo não sabem do que falam, principalmente quando o assunto é economia. Na ótica política, as ferramentas intervencionistas do Estado são a salvação de toda a humanidade e é com elas e com a astúcia que só um homem experiente no meio público pode ter que os problemas serão resolvidos.

Os políticos, contudo, tendem sempre a olhar apenas um lado da moeda, e carregam a sociedade e seus votos na defesa de suas verdades. Como disse Ludwig von Mises, líder da escola austríaca de pensamento econômico, em Ação Humana:

"Todas as variedades de políticas ... amparam-se na alegada capacidade que teriam essas políticas de aumentar o padrão de vida dos seus seguidores. O protecionismo e a auto-suficiência econômica, a pressão e a compulsão sindical, a legislação trabalhista, os salários mínimos, as despesas públicas, a expansão do crédito, os subsídios e outros artifícios são sempre recomendados por seus apologistas como o melhor ou o único meio de aumentar a renda real dos eleitores cujos votos pretendem angariar. Todo homem de Estado ou político, invariavelmente, diz aos seus eleitores: meu programa vos trará tanta abundância quanto as circunstâncias permitirem, enquanto que o programa de meus adversários vos trará a pobreza e a miséria."

Resumindo para entrar de vez na discussão desse tópico: os homens e os políticos em geral cegam-se acreditando que um lado (o seu) deve ser favorecido em detrimento de outros, adotando políticas intervencionistas. É normal que isso ocorra, afinal, os homens, sejam eles empresários, trabalhadores de fábricas, atendentes de telemarketing, aposentados, sempre querem puxar o osso do Estado para seu lado.

Tudo isso é condenável em todas as instâncias. Quem quer o câmbio depreciado para aumentar as exportações ignora que isso reduz as importações; quem quer universidade pública gratuita e para todos ignora que isso consome recursos que seriam melhor usados na educação básica; quem é contra a reforma da previdência ignora que há um desequilíbrio do gasto público entre aposentados e todo o restante da população.

Como tudo isso é atribuido como culpa da política e das pessoas que não conseguem se afastar e ver a situação como um todo, surgem os que defendem a teoria tecnocrata. Em oposição clara à democracia, a tecnocracia (ou governo dos técnicos) propõe que a política seja restringida em favor das vozes racionais que entendem e levam a sociedade à frente. Vozes essas que são capazes de olhar sobre todos os homens e compreender o que eles realmente precisam.

Essa é a base de ditaduras: o governo tem a razão e guia o povo às soluções dos problemas. Foi assim com Getúlio, Stalin, Mussolini e, por que não, com Hitler e com a China de hoje. Na URSS a presença dos tecnocratas foi a mais evidente. A tecnocracia, contudo, não deixou de ser mais corrupta, presa à máquina Estatal, intervencionista e igualmente parcial.

Muitos economistas, visando garantir a estabilidade da economia, fora das turbulências políticas, acabam caindo numa vertente da tecnocracia. Todos querem uma economia estável, todos querem um Banco Central independente, distante das loucuras de um eventual Ministro da Fazenda descontrolado ou de devaneios políticos. As idéias de tais economistas não são nada intervencionistas, a maior parte defende a ausência do Estado da economia, mas, sem perceber, podem cair na tecnocracia. Nesse caso, uma espécie de "tecnocracia liberal".

Tecnocracia aí se entende como o completo desligamento dos organismos econômicos da esfera política, deixando aos políticos o brinquedinho insignificante deles (o governo). Independentemente da ação dos homens públicos, a economia estaria segura e estável, agindo imparcialmente, aos moldes liberais.

Contudo, a resposta dos que tem que escolher entre política e "tecnocracia" não deve ser nem por um lado nem pelo outro, mas sim pelos dois. Representação da vontade popular, a política é ineficiente, demorada, corrupta, falsa e muitas vezes burra. A "tecnocracia" parece ser mais eficiente, mas não é suficientemente democrática e pode cair no carreirismo burocrático. É conciliando os dois lados, com seus problemas e qualidades que conseguiremos chegar a um equilíbrio benéfico a toda a sociedade.

Não podemos deixar os organismos econômicos nas mãos do governo instável, mas não podemos fechá-los neles mesmos. Tais instituições devem ser fortes, transparentes e subordinadas ao legislativo. Assim, garante-se que não serão usadas como arma política, possibilitando uma gestão "isenta" das vontades de uns ou outros grupos, mas ao mesmo tempo assegura-se que são instituições democráticas, subordinadas aos representantes do povo.

No Brasil as coisas são quase assim (não se frustrem porque estou defendendo algo que já existe), contudo deve-se afirmar a independência do BC e fortalecê-lo como instituição cada vez mais. As instituições democráticas são a melhor forma do povo ser ouvido e de um país ir à frente.

11 de março de 2008

O Verdadeiro Agente Smith

Seguindo a inspiração do último texto, oriunda do filme Matrix (Warner, 1999), falemos sobre a figura do famigerado Agente Smith.

No filme, o Agente Smith simboliza uma forma de opressão das máquinas que prendem os homens em uma falsa realidade, enquanto suas energias são sugadas. O filme é interessante. Bela história...

Agora, analisando bem, numa livre-associação sem aparente sentido, esse nome, essa história, tudo me leva à um caminho de raciocínio. Smith; controle sobre os homens... Tudo isso lembra economia, lembra Adam Smith.
Sem dúvida é uma relação sem sentido lógico, mas ainda assim curiosa.

Antes de seguir nesse delírio, devemos relembrar a grande divisão entre os que estudam a sociedade capitalista. Muitos, por muito tempo, defenderam que o capitalismo era destrutivo e instável. Outros afirmaram que o sistema é harmônico, em um equilíbrio.

A posição do filme parece concordar com a teoria da harmonia. Além do simples fato de nosso sistema existir "harmonicamente" há mais de duzentos anos, o que definiria logicamente tal concordância, a película mostra, na realidade virtual que o enredo propõe, uma sociedade estável, harmônica. No roteiro, quem mantem essa situação é exatamente o Agente Smith.

O que tudo isso representaria? O controle da situação pelo agente talvez seja uma sutil ironia ao conceito de Mão Invisível, que Adam Smith propõs como explicação da harmonia do capitalismo. Essa Mão, contudo, de acordo com a teoria que aqui se desenvolve sobre a visão do filme, oprime os homens e os aliena.

Curiosamente, Adam Smith falou sobre alienação. Ao se referir à especialização do trabalho, diz que essa pode levar à falta de participação política, a pior coisa que poderia ocorrer a um homem.

Interessante analisar o enredo ganhador do Oscar desses pontos de vista. No entanto, apesar de estar correto a respeito da harmonia do sistema, está incorreto quando representa o fim das liberdades à submissão ao mercado, à Mão Invisível. Como dito, o próprio Adam Smith questionou a alienação e propôs uma solução: o investimento em educação. Assim, há a libertação das pessoas.

O liberalismo econômico, como o próprio nome já diz, liberta, e não oprime o homem. A verdade é que o que oprime e aliena a humanidade é exatamente a falta de capitalismo liberal. A Mão Invisível, ao contrário do Agente Smith de Matrix, possibilita aos homens a saída de uma "realidade imposta", com possibilidades de mobilidade, inovação e empreendedorismo inexistentes em nenhum outro sistema.

O verdadeiro Agente Smith não é uma mão que barra, e sim uma mão que possibilita à humanidade avançar em seus desejos e paixões. O mercado não suga a "energia vital" dos homens e sim organiza suas relações, deixando-os agir e progredir no sistema que mais inova, cria e cresce: o capitalismo.

19 de fevereiro de 2008

Uma Overdose de Pílulas Vermelhas


Não nos esqueçamos de que as reflexões tratam do mundo real, do concreto. O abstrato é espelho da realidade, é por ele que vemos e entendemos o mundo, mas ele em si não é o mundo.

A consciência, que obriga o homem a ter suas verdades para encarar o mundo, nos leva a refletir antes de agir. Conforme nos treinamos e nos damos conta do poder da abstração, melhor conseguimos entender o que nos cerca, transcendendo para um outro plano. É o que representa a pílula vermelha em Matrix.

Contudo, não podemos esquecer que, apesar de linda, essa transcendência só é válida quando nos ajuda a entender o palpável, o real. Não podemos nos deixar cair em reflexões sobre reflexões que não tenham referência na realidade. Em um caso como esse, estariamos tendo uma irresponsável overdose de pílulas vermelhas.
Vale lembrar que essa capacidade de transcender só nos foi útil pois nos possibilitava entender melhor o mundo e sobreviver ativamente nele.

O exagero, o despreendimento completo dos vínculos com a realidade, transforma a reflexão em uma proto-reflexão, e a filosofia em uma proto-filosofia. A atitude passiva, a overdose de pílulas vermelhas, a proto-filosofia são perigos fortíssimos dos homens. A chamada "negação da negação" marxista só é válida se lembrarmos que não estamos negando apenas o negar, e sim refletindo sobre a realidade, sobre a sociedade e sobre cada indivíduo que, no seu egoismo, a compõe.

Não nos deixemos alienar na luta contra a alienação.
Não sejamos blasés como os filósofos que poderemos encontrar pelo caminho, sentados sobre uma pedra.